A Hiperactividade vista à lupa

Quinta-feira, 03 de Novembro de 2011

 

 

O Rafa tem sido daqueles miúdos bafejados pela I.I. - uma espécie de Inteligência Inata que lhe permite tirar boas notas nos testes, sem quase pegar nos livros....

 

Quando começei a ter uma noção mais exata da PHDA no comportamento escolar das crianças, temi pelo futuro do meu filho. Obviamente todos os pais gostam que os seus miúdos façam boa figura nos testes - mas quando a criança é portadora de PHDA, os pais apenas anseiam que o percurso seja o menos atribulado possível e as expectativas são ajustadas, até porque o objectivo principal passa a ser que eles consigam ultrapassar os obstáculos, suficientemente motivados.

O papel da escola tem vindo a mudar ao longo dos anos, no entanto ninguém duvida que é actualmente fundamental, até porque da escola e do seu sucesso depende o futuro dos que amanhã serão a força ativa do país. Ter bons resultados abre muitas portas e por isso são cada vez mais os pais que desde cedo incutem aos miúdos a necessidade de trabalharem para as «notas». Confesso que (seja pela experiência que tenho com o meu filho, seja por personalidade) não sou muito de ligar às avaliações - não quer isto dizer que negue a sua importância, no entanto acredito muito mais no esforço e no empenho do que propriamente na avalição, feita por vezes até sem corresponder à realidade (se calhar é porque sei que para um miúdo com PHDA, o esforço que tem para conseguir uns 50% é muito maior do que um miúdo sem a patologia para tirar 70%). Acho que se houver empenho, se houver esforço, isso se manterá pela vida fora e será sempre uma mais valia...Por isso premeio essencialmente o esforço. E digo-lhe sempre - não importa o resultado desde que tenhas dado o teu melhor, desde que te esforces por fazer bem!

 

Durante o ensino básico o Rafa sempre teve excelentes resultados (na matematica foi mesmo muito bom) sem que tenha tido muito esforço para isso - pelo menos a avaliar pelo que trabalhava em casa, apesar do meu esforço em tentar que entendesse a necessidade de se orientar nos estudos. Sempre lhe fui dizendo no entanto que nem sempre os bons resultados surgiriam com facilidade e que fosse esperando maior trabalho quando entrasse no 2º ciclo.

Ora, ele iniciou este ano o 2º ciclo. A par da maior exigência - desde logo na organização da rotina, dos cadernos, dos TPC - uma maior dificuldade da matéria em si. Mais disciplinas, mais professores, métodos diferentes. Muito para um miúdo cuja capacidade de atenção se dispersa ao fim de cada 5 minutos...e cuja capacidade para se manter quieto se esgota ao fim de uns escassos segundos. Embora medicado (agora até com dose reduzida para uma reavaliação do médico) o Rafa mantém a inquietude e a desatenção - e é em casa (após o efeito da medicação passar) quando deveria estar sem pressão a fazer o trabalho de interiorização da matéria dada na escola, que mais se nota essa agitação. Resumindo: é muuuuuuito difícil conseguir que faça os TPC e conseguir que estude para um teste é uma tarefa de enorme desgaste (para mim e para ele claro).

 

Portanto não é de admirar que as cenas que temos vivido ultimamente sejam em tudo semelhantes a esta que agora descrevo

 

Local: sala com TV desligada (o quarto tem mais brinquedos) e porta fechada

Objetivo: estudar para o teste de inglês

Personagens: miúdo elétrico (saltitante e falador) mãe armada em durona (mas com vontade de esganar o miúdo) ditando regras simples e claras e demonstrando uma paciência que na verdade estava no limite

Adereços: caderno, estojo, manual e livro de atividades da disciplina em questão (mochila por insistência do miúdo, ao lado da mesa)

Acontecimentos: tentativas para que o miúdo se sentasse - várias (pelo menos 5 antes de atingir a fase em que deixei de contar); tentativas para orientar a conversa no sentido do objetivo pretendido - inúmeras (todas eram goradas pela desconcertante conversa do miúdo)

Exemplos reais: Rafa tens de tirar o lápis do estojo, a mãe preparou umas questões, vamos ver se consegues fazer....sim? Rafa?

«Ok! olha mãe esta borracha já está tão gasta...podias comprar outra? olha tás a ver esta afia? o G. tem uma mas a dele é amarela e tem uma que parece uma ratinho do PC....sabes que estive a jogar com os meninos da outra turma e eles queriam ver se conseguiam marcar mais golos mas o F. joga muito bem e eu e ele conseguimos marcar muitos golos até um menino do 9º ano esteve a jogar e nem conseguiu marcar...»

Rafa...o lápis! Vamos começar porque temos que terminar quando forem estas horas (e mostro o relógio...)

«Sim, tá bem! Sabes que....olha vou só ali dizer uma coisa ao Quico e já venho...»

Rafa...agora não!

«venho já, é depressa...Quicooooo» (já a chegar à porta e correndo ao encontro do irmão)

Nova tentativa: Rafa, pega já no livro para rever-mos a matéria e ver em que é que tens mais dificuldade...

«Tá bem, que chata! eu sei isto...olha está aqui um bocado de pão (tira um pedaço de pão ainda embrulhado, da mochila) já sei era do lanche de sexta...»

Rafa, agora! ou pegas no livro ou saio e não te ajudo. 1, 2, 3...

«Pronto, já está, vamos ver os pronomes? ok? ena...tinha um jogo partido na psp e o Quico queria jogar...se calhar vai pegar e o jogo tá partido...»

Depois vês, agora trabalhas

«mas eu vou lá rápido, ok? muito rápido...Quicoooooo»

(mãe ferve, respira fundo, mentaliza uma cena de estudo...ele já está outar vez a sair da sala...)

«Ufa ele não pegou...olha tava a ver uma coisa no Panda...queria tar a ver também, o Quico é mesmo sortudo...»

Não...o Quico é apenas mais novo. Tu agora tens uma responsabilidade maior...Anda vá, está a terminar o tempo...

«Opá, és mesmo chata. Ok! (pega no primeiro exercício...) ó mãe, eu queria era uma prancha de street surfing para o Natal...podes comprar?»

Rafa, o teste - rever a matéria...agora!

«Fogo! isto é fácil - olha não me apetece estudar mais, estou cansado!»

(mãe a explodir) Se não fazes isto não sais da sala....

«Pronto, já tou a fazer...»

Mais umas tentativas e acaba por fazer metade do que estava previsto com muita insistência pela manhã (dando-lhe o comprimido um pouco mais cedo)

Epílogo: o Rafa foi o melhor da turma no inglês com quase todo o teste certo....

 

a cena repetiu-se estes dias para outras matérias - ciências da natureza, ainda não recebeu o teste (não sei a nota) mas como sempre terminou-o muito antes dos outros e diz que esteve a olhar para o ar, a fazer equilibrio na cadeira e outras acrobacias para ocupar o tempo....LP - revisão da matéria em 5 minutos...a ver vamos...

 

postado energia-a-mais às 09:08

De carla santos a 3 de Novembro de 2011 às 11:11
Olá, como já deve saber sou mãe do Luis que tem a mesma idade do Rafa e cada vez que leio o que escreve, só consigo rever o meu filho. Tanto que eles tem em comum. Quando ele andava na primária, eu só lhe dizia que a sorte ia acabar, por ter excelentes notas sem estudar nada, mas cada vez mais me convenço que não é sorte é saber. Ainda bem que assim é, já que conheço outros casos em que as dificuldades são mesmo muitas.

De energia-a-mais a 3 de Novembro de 2011 às 11:44
Olá Carla. Pois é, muitas vezes existe a ideia de que estes miúdos não aprendem, não conseguem tirar bons resultados. Muitas vezes as dificuldades surgem não por deficite cognitivo mas porque não conseguem ter a atenção/concentração necessária - e numa grande maioria, a natureza dotou-os de mecanismos de compensação muito bons (capacidade de memorização por exemplo). Ou seja, muitos destes miúdos são muito capazes de terem excelentes resultados
Beijos

De luadoceu a 3 de Novembro de 2011 às 14:27
ola amiga
es mesmo uma mae de amor incondicional,paciencia infinita e mae coragem
eu tantas vezes ao ler te,pergunto me,seria uma boa mae,na tua situaçao?e conseguir...teria de conseguir,claro,mas ja me perguntei tantas vezes
e mto bom de facto saber que mesmo assim tira bons resultados
o teu relato e excelente
beijinhos...))

De susana miranda a 3 de Novembro de 2011 às 18:40

Amiga,

És uma “mãe coragem”, nem o cansaço te deixa esmorecer. Ao longo destes anos, soubeste compreender e entender a PHDA. Abordas várias vezes a temática da PHDA. Como figura parental, sentes na primeira pessoa, as complexidades da patologia, e as suas repercussões no quotidiano.
É necessário “desmistificar- os rótulos” sobre as crianças com PHDA.

A família deve ser o local onde a criança se sente protegida e onde lhe é dado todo o apoio para crescer de forma saudável, onde a criança vai buscar conforto, carinho normas e educação. As atitudes dos pais e professores devem ser positivas, ao mesmo tempo valorizarem e reforçarem os comportamentos adequados, evitando assim as críticas frequentes que levam ao insucesso. A base principal para estas crianças será o meio social, a sua família e os seus amigos, para que sinta apoiada e não rejeitada.
Um desenvolvimento harmonioso é resultado de um vasto número de experiências de afecto, condutas, normas e orientações que auxiliam a que a criança construa a sua personalidade (Brazelton & Greennspan, 2002).

Globalmente, de modo positivo, existem acções mediadoras que promovem a auto-estima, isto é, uma boa auto-estima é construída com base em acontecimentos vividos de uma forma satisfatória e com situações que propiciam um sentimento de segurança e de domínio sobre a realidade (Laporte & Sévigny, 2006).

Beijos com carinho
Susana Miranda


De Patricia a 4 de Novembro de 2011 às 10:04
Pois, Teresa
Não pode ser tudo dificil. Acho que te deves sentir feliz por esta capacidade cognitiva que o Rafa demonstra ter. Talvez nem valha apena te marterizares a ti e a ele com o estudo, se ele consegue adquiir as competencias academicas que era suposto.
Eu com o Nuno, com se alia o PHDA com a dislexia e com uma memória de trabalho muito reduzida, a historia é outra. Precisamos de muitas horas extras de trabalho para memorizar as coisas mais simples. E ao fim do dia, depois de um dia inteiro de escola...é muito complicado.

Beijos
Patricia

De Abigai a 4 de Novembro de 2011 às 10:17
Olá Teresa, pois o Rafa tem essa facilidade e é muito bom, enquanto assim for pelo menos tem onde se agarrar, até pode ser o miudo mais "terrível" mas pelo menos não têm nada a apontar em termos de resultados...
Como o Nuno da Patrícia, o Gabriel não tem essa facilidade e é difícil para ele encontrar um ponto de equilibrio... e quando os professores nem valorizam o esforço, pior ainda!
Mas a cena do estudo fez-me lembrar muitos dias iguais lá em casa, é incrível como têm sempre a cabeça noutro lugar... fala-se, fala-se, mas parece que só as paredes nos ouvem!
Beijinhos,
Anabela

De Patricia a 4 de Novembro de 2011 às 22:52
Hoje o N. veio para casa cabisbaixo. Ja ontem tinha estranhado serem 1 da manhã e ele andar as volta na cama.

O que foi, um teste de ingles, uma crise de ansiedade, o chegar la e não conseguir fazer quase nada ( e nos tinhamos estudado, 3 dias inteirinhos: sabado, domingo e Terça-feira feriado , feito varias fichas, feito varias aulas de ingles no computador, escrito 10 vezes os numeros ate 20, feito ditados etc), teve uma crise de choro a meio do teste por ter sentido o panico de não se lembrar de nada.

Isso sim...custa. Doí imenso!!

Patricia
Patricia

De energia-a-mais a 5 de Novembro de 2011 às 14:23
Olá Pat. Tens razão doi imenso. Mas isto só prova que estes miúdos precisam de estratégias e métodos diferentes dentro das salas de aula. Por que é que o prof do N. não conseguiu gerir aquela ansiedade dele? porque é que não foi permitido ao N. ter uma outra oportunidade de, mais calmo, fazer o teste? pois se tu sabes que estudou e acredito que tenhas percebido que ele até tinha conhecimentos para fazer o teste, creio que o problema não é tanto o déficite cognitivo (que o N. não tem) mas a incapacidade de lidar com a sua ansiedade (muito comum na PHDA).
Quanto ao Rafa, lá por ter boas notas não quer dizer que não sinta as mesmas crises - a ansiedade e o panico fazem parte da nossa luta. Estas noites que antecedem testes são passadas em choros, vómitos e muita insónia. Sempre que tem algo fora da rotina (seja um teste, uma visita de estudo ou uma saida com o pai) isso acontece. O que tento é trabalhar com ele maneiras de lidar com essas crises. Nunca fazer com que se sinta diminuído (nunca lhe digo - é preciso estares assim? sei que não o faz de propósito) e mostrar-lhe como se pode auto controlar quando não estou eu perto dele.
Um beijo grande, és uma excelente mãe e o N. conta contigo, portanto força para ultrapasarem estes momentos menos bons


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