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Energia a Mais

A Hiperactividade vista à lupa

Energia a Mais

A Hiperactividade vista à lupa

04.Jul.08

Uma cena de filme

A semana nem correu mal de todo (comparando com outras bem piores que já vivi!) mas eu sabia que ainda estava para chegar alguma coisa. E não é que estava mesmo?!

Quem passa por aqui sabe que o meu filhote mais velho aceitou entrar para um campo de férias (pela primeira vez este ano). Tem andado de certa forma entusiasmado e ainda não falou em desistir, o que é bom sinal! Os monitores do campo (alguns já nossos conhecidos) já me disseram que o pior é terem de estar sempre a dizer ao Rafa o que vai fazer a seguir (o pensamento dele está sempre mais á frente) e tentar com que aprecie cada actividade sem pensar na seguinte (eu já sabia que ia ser assim...)

Para este dia, tinham planeado uma ida á praia. Apesar do tempo por aqui não estar grande coisa, fomos avisados que a saída se mantinha, pelo que tive de preparar o Rafael para estar no campo ás 08:15H. Como já tinha ido buscar a minha mãe e deixá-la  no emprego, os minutos estavam contados e não podia haver atrasos nem de segundos. Ora o que faltava logo pela manhã era uma GRANDE BIRRA que começou pelos ...tchã, tchã...CALÇÕES DE BANHO!. O que acontece é que desde há umas semanas, o meu filho se recusa a vestir cuecas, boxers ou calções de banho com licra ou algodão. Diz que lhe metem muita impressão, os nervos bulem e como ferve em pouca água, faz birras descomunais e sai de casa  sem os ditos (entretanto comprei de tecido, boxers porque calções para o banho não dá!) Claro que enquanto  gritou, esperneou, atirou com os calções pelo ar, chamou nomes a toda a gente, tentou bater no irmão, etc, a minha paciência foi esgotando. Tentei chamá-lo á razão mas quando começou a dizer que já não ia, fiquei em pânico e  acabei por dizer que levasse os calções de saída sem os de banho por baixo e que tivesse cuidado na hora de ir á água.

Bom, lá o consegui meter no carro no último minuto que assegurava chegar a tempo, eles iam de comboio, por isso, e porque a estação é mesmo ao lado das instalações do campo, já todos estavam preparados quando entramos em cena.

Estava eu para fazer as despedidas quando ele se lembra de dizer que afinal não queria ir «mas porquê filho, se todos os teus amiguinhos vão, não tens com quem ficar!»/«fico em casa...»/ «não em casa não ficas porque a mãe hoje tem coisas marcadas e não pode ficar em casa»...o diálogo arrastou-se com argumentos vários que se foram esgotando e levaram a um apoteótico final, com o Rafa pendurado na janela do carro a gritar que não queria ir á p.... da praia (depois de vários monitores terem tentado a sorte e das minhas habituais ameaças) e eu a arrancar em grande espalhafato! Os miúdos puseram-se entretanto em fila junto á paragem do comboio e eu fui obrigada a parar porque a cancela fechou. Estava um carro apenas á minha frente e vários foram chegando atrás, eis quando senão o Rafa abre a porta do carro e sai disparado para a linha do comboio gritando que se eu queria então ele ia á p..... da praia, c........ (ainda não lhe passou esta dos palavrões). Claro que tive de correr atrás dele, até porque tive receio que fosse atravessar mesmo sem olhar, só que com a aflição deixei tudo como estava, o carro com a chave na ignição, vidros abertos, enfim como nos filmes! E foi mesmo assim pois o comboio chegou nesse instante, o Rafa entrou com o pior dos humores, sem se despedir, as cancelas levantaram,  e eu tive de voltar ao carro para ouvir outra série de palavrões e raspanetes de furiosos condutores (apressados) que queriam era saber quem tinha sido a engenhosa que espetara com o carro naquele lindo sítio!

 

 

03.Jul.08

A porta do lado

Vou contar um episódio que já ocorreu em Fevereiro mas que por causa de um outro ocorrido agora, me voltou a assolar os pensamentos:

eu vivo num prédio, sempre vivi (mesmo quando vivia com os meus pais) pelo que estou habituada ás regras (por vezes difíceis) da convivência entre vizinhos da porta ao lado. Este prédio onde vivo é um daqueles bonitos prédios centrais, com todas as comodidades, onde os apartamentos são muito espaçosos, de boas construções e onde vive a gente «bem». Porque é que isto é importante? Porque bem podia ter-se passado num outro qualquer bairro, de onde se fala normalmente de problemas entre vizinhos, conflitos sociais e complicações várias. (só para ver que nada disto tem a ver com posição sócio-económica mas sim com boa ou má educação)

Quando vim para cá viver há cerca de três anos, dei a conhecer aos meus vizinhos próximos o problema do Rafael e mais tarde do Francisco. Fi-lo não porque me sentisse obrigada mas porque achei que devia evitar falatórios e colocando todos ao corrente da situação, poderiam entender melhor o porquê de tanta algazarra com os miúdos em casa.

Desde sempre o meu filhote primou por uns belos pulmôes e mesmo sem ser em momentos de crise o nível de voz dele (e do irmão mais novo) é sempre elevado. Além disso expliquei que por vezes poderiam ver o Rafa a subir as caixas do correio, a dar saltos na escada ou a fazer o pino na entrada do prédio. Na altura todos se mostraram compreensivos e até me disseram que teria todo o apoio e que não me preocupasse, afinal era uma criança e havia outras no edifício (mais três no total que nunca se ouvem!)

Claro que quando surgiram as primeiras provas do que eu dissera sobre o meu filho ser um pouco, digamos «diferente», começaram os comentários. Desde as tentativas de ajuda moral, como dicas para ele ser mais bem comportado, até aos recados subtis de que a culpa era de uma educação demasiado permissiva, nada compatível com o local asseado e muito educado onde viviamos, tive de aguentar tudo com um sorriso «amarelo», pensando com os meus botões que seria bem mais fácil se vivesse numa moradia, mas enfim!

No entanto tive de me irritar quando começou a ser demasiado visível o desagrado dos meus vizinhos mais próximos (mesmo piso) zeladores proclamados do prédio, daqueles que anotam horários e rotinas de todos, sabem quem entra e sai e para onde, limpam as dedadas do elevador, tiram o grão de pó das caixas de correio...

Um dia em que o meu filho me fizera sair de casa com as habituais duzentas coisas que precisa em absoluto, entre elas a bicicleta, a bola e meia dúzia de carros, bonecos,etc, tive de voltar atrás para comprar pão (temos padaria mesmo em frente) quando já tinha entrado no átrio. Acabei por deixar a bicicleta encostada a um dos lados da parede e lá fui com o Rafa a reboque ao outro lado da rua. Eis, senão quando volto deparo-me com um bilhete na bicicleta, em letras garrafais - «Isto não é garagem de bicicletas».

Ora, sabendo eu por instinto quem colocara o recadinho, ainda por cima não sendo o primeiro (sempre não assinado) a avisar do lixo no chão, dos dedos marcados na porta da entrada, tudo porque só o meu filho faria tal coisa, quem mais poderia ser?! acabei por ir bater na porta ao lado, para que soubessem que a) não escondo o que faço; b) deixar a bicicleta por 10 minutos na entrada não é fazer do local garagem; c) vivem outras pessoas no prédio que fazem barulho, batem com as portas, deixam marcas nos vidros, etc. Fiquei a saber que a) não há ninguém como o meu filho no prédio; b) que este não é um prédio de bairro (tem qualquer coisa a ver com educação e o facto de o meu filho não ter nenhuma) c) que os vizinhos de baixo, pessoas que passam cá apenas as férias (estiveram no Natal), não conseguiram aguentar o barulho das crianças a toda a hora e por isso foram para casa de familiares para a senhora poder dormir (presumo que os meus filhos não têm essa sorte e não podem sair de casa quando os meninos do lado brincam ás escondidas ás 23:00H).

Sou uma pessoa pacífica e gosto de manter boas relações com pessoas que vejo todos os dias e que entram pela mesma porta que eu, tenho vizinhos prestáveis e amigos. Não posso é aceitar calada que outros atirem para o meu filho, culpas que não são dele. Que o olhem como se tratasse de um marginal só porque chega com as camisolas em desalinho e corre sem controlo ou esbarra contra a porta. Não aceito que reparem na maneira como abro a porta ou coloco a chave na fechadura, se acendo a luz da escada mais do que uma vez ou se uso o elevador três vezes ao dia. Não aceito moradores de primeira ou de segunda (eu sou destes) ou que me digam que hiperactividade é o mesmo que falta de respeito.

Não aceito e não me calo. Obrigada a todos os que convivem connosco e nos olham pelo que somos de verdade. Obrigada aos bons vizinhos que tenho. Os outros que se lixem!

01.Jul.08

Eu rendo-me

afinal sempre que penso que o Rafa atingiu alguns progressos, vem um dia como o de ontem! Na verdade, desde que alterou a medicação e suprimiu a toma de risperidona, o Rafa anda muito mais nervoso e agressivo, pelo que qualquer birra descamba rápidamente em gritos, murros e palavrões...já no sábado tinha tido uma dessas crises e em pleno centro comercial, na hora de almoço, acabei por me passar e desatei a chorar descontroladamente (ele não viu, eu tive o cuidado de entrar no wc e deixei-o com o avô) Lá conseguimos superar essa e no domingo tivemos mais um braço de ferro (desta vez por causa do banho) que acabou com uma grande mentira da minha parte (disse-lhe que ligara aos srs. da segurança social e eles vinham buscá-lo no dia seguinte de manhã para o levarem para uma instituição, uma vez que em casa não conseguiamos funcionar como família) e com ele lavado em lágrimas a pedir desculpa (o que nestas crianças aconteçe sempre que acalmam, pois normalmente são muito sensíveis) e com as promessas habituais de mais juízo!

Ontem foi mesmo de arrasar, estivemos em maratona, ao ponto de ganharmos assistência e até propostas de ajuda dos agentes da autoridade. Eu explico, a birra foi cá fora em praça pública e no local encontravam-se dois polícias de trânsito na ronda pelos carros mal estacionados. Quando viram o descontrolo que se gerou ofereceram-se para dar uma maozinha. Claro que até eles desistiram ao fim de algum tempo, eu aguentei duas horas, até conseguir dar-lhe a volta e ver que se acalmava aos poucos, para depois explicar o motivo do meu «não». Que continuou a ser não, apesar de várias nódoas negras com que fiquei (ele tem uma marca no rosto da qual ainda se lembrará até á próxima birra) e da cabeça mais parecer um balão prestes a rebentar. Noto que a minha capacidade de resistência, ou melhor, a capacidade que tinha para não me deixar afectar tanto, está um pouco mais baixa. Preciso nitidamente de férias!!

Hoje consegui levá-lo ao campo de férias, onde para além do apoio de gente conhecida e de colegas da mesma escola, espero que o encham com actividades aliciantes e o cansem fisicamente. Se o conseguir manter interessado pelo menos duas semanas, será certamente uma bela vitória...

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