A Hiperactividade vista à lupa

Quarta-feira, 02 de Março de 2011

 

 

nem sempre a convivência é fácil! e nem sempre a política da boa vizinhança é cumprida na perfeição....

 

 

é ponto assente que viver num prédio obriga a certas «regras» de sociedade para que haja um ponto de equilibrio entre a independência de cada morador e a natural vida comum de quem partilha a mesma entrada.

Viver num prédio com crianças hiperativas não pode ser «camuflado». Nunca omiti ou deliberadamente escondi de qualquer pessoa a hiperatividade do Rafa. E quando mudamos de apartamento uma das condições que me exigi a mim própria foi a de colocar desde logo os vizinhos mais proximos a par da situação. Não quer isso dizer que tenha dado longas explicações ou feito uma apresentação formal - apenas me limitei, numa reunião de condomínio a informar os presentes de que a minha vida familiar é tocada por uma patologia que afeta o meu filho mais velho e que isso implica ter alguns períodos menos bons que condicionam certas regras de «boa vizinhança».

Se o meu filho tem um acesso de típica impulsividade e dominado pela eletrizante energia que o caracteriza, dispara a correr pela escadaria, saltando degraus e batendo com os pés na parede, eu não quero ser «acusada» de má educadora...Também não quero que se ponham a fazer cara feia se o vêem chegar da escola aos saltos e a falar tão alto que se consegue ouvir desde a entrada até ao sexto andar! 

Na dita reunião todos se mostraram equilibrados e compreensivos, garantindo que entendiam a situação...mas claro, alguns «entendem» mais do que outros...

E já vivi de tudo entre vizinhos - desde meterem papelinhos «anónimos» com recadinhos (que terminaram depois do «anónimo» ter sido confrontado comigo frontalmente) a tecerem comentários de que eu era demasido permissiva e por isso os miúdos se portavam assim, até conselhos de palmadas e castigos e muitas histórias de alguém que «era igualzinho» ao Rafa e que depois de uma certa idade, mudou para uma criança super «bem comportada»!

 

Quase sempre limito-me a ouvir e não ficar a pensar muito no que dizem, desde que respeitem o meu espaço e não se intrometam em demasia. E embora por vezes se note as grandes «diferenças» de comportamento do Rafa em relação a outras crianças, consigo minimizar estragos eventuais com uma dose de bom senso, muita prudência e regras definidas - afinal cá em casa a rotina é bem mais rigorosa do que na casa dos vizinhos, isso posso garantir!

 

e isto vem a propósito do quê? pois...

 

isto é porque de vez em quando há coisas que só mesmo a nós podem acontecer...Como por exemplo, ter a «pontaria» certeira de conseguir fazer papel de «parva» sempre com determinado vizinho...

 

Imaginem um professor solteirão na casa dos entas...muito senhor de si, com certos tiques efeminados e sem qualquer pachorra para miúdos (ossos do ofício provavelmente!) e os meus dois putos, dentro do mesmo elevador. Imaginem um Rafa afoito com mochila às costas a querer mostrar os cadernos todos naquele instante para me mostrar um recado da escola que anotara num deles. Imaginem um Quico a pendurar-se na barra de apoio que tem dentro do elevador...imaginem eu toda coradinha  a fingir que não se passa nada...nunca o terceiro andar me pareceu tão alto....o tal vizinho encolhia-se todo e eu só via a mochila do Rafa a bater-lhe em todo o lado, especialmente no peito e cara...

 

Imaginem uns dias depois apanhar com o mesmo vizinho...e enquanto o Rafa se senta no elevador e tenta desapertar-lhe (sim, ao homem) os atacadores dos sapatos, o Quico gritava algo como «hei tu senhor, queres ver o meu rabinho? não? não...».  Eu não sabia se devia travar o elevador de modo a sair antes ou se fingia um total alheamento...optei por tentar tapar a boca do Quico enquanto puxava pelo Rafa...lindo!

 

e o último encontro nosso com este vizinho?! calhou o homem estar a entrar no prédio, quando nós estavamos a chegar no carro. Mal parei, o Quico saiu disparado e quando se apercebeu de que a porta da entrada estava prestes a ser fechada gritou um estridente NÃO ao mesmo tempo que se lançava em estilo ninja para cima do homem...  pensei que desta é que o vizinho se «passava» e até receei pelo Quico mas nem tive tempo para me aproximar antes de novo incidente...é que entretanto muito mais rápido do que eu, já o Rafa se precipitava também para a entrada, segurando euforicamente  a sua mascara de carnaval, quase o deitando ao chão na sua passagem...se vissem a cara de horror com que nos olhava...acreditem que nem o meu mais doce sorriso terá para aquele homem qualquer significado - somos os abomináveis vizinhos dele...

 

 

 

 

postado energia-a-mais às 09:12

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