A Hiperactividade vista à lupa

Quinta-feira, 01 de Abril de 2010

ordinário....

 

Não é fácil para uma mãe reconhecer que tem em casa um filho capaz das maiores ordinarices! tipo, capaz de dizer palavrões de nos deixar de cabelos em pé, atirar-nos com nomes do mais puro e ranhoso calão, deixar-nos de cara escaldada porque é um desbocado mesmo com quem não conhece e parece não entender a noção de vergonha...

 

um miúdo que tira macacos do nariz, que deixa as mãos no prato da salada, que vira a água cada vez que pega num copo, que assobia nos consultórios, baixa as cuecas de vez em quando e cospe para o chão...

 

e que é capaz de puxar os cabelos do irmão mais novo, tirar-lhe os brinquedos, estragar o bolo de alguém, estar sempre a interromper uma conversa, correr para ser o primeiro a atender uma porta ou um telefone, mudar de canal sem avisar, não respeitar o silêncio de ninguém...

 

 

Pronto, não é mesmo nada fácil...e uma mãe não gosta nada de ouvir «que miúdo tão ordinário!»

 

A não ser que essa mãe se lembre que esse miúdo não o faz propositadamente, que esse miúdo tem um transtorno grave do comportamento, que embora inteligente, ele não se controla como seria «normal» esperar...

 

que se lembre que um dos mitos da hiperactividade que ainda subsiste, é achar que para mudar esses comportamentos basta a força de vontade (ou basta o querer...)

 

que ela se lembre que esse miúdo se revela nos momentos mais calmos e controlados pela medicação (necessária para lhe dar o tal controlo) num menino consciente das suas diferenças e perturbado pelo impulso...

 

que se lembre do olhar carente e desejoso de agradar, querendo ser melhor, mostrando que sabe amar...

 

E se essa mãe vier da escola com o coração a rebentar de orgulho pelos bons resultados escolares, pela certeza de que com boa orientação esse miúdo consegue suprir as ordinarices,

 

Então mais motivos tem para responder «não, minha senhora, ele é mesmo EXTRAORDINÁRIO» 

 

 

 

 

postado energia-a-mais às 09:35

Domingo, 06 de Dezembro de 2009

muitos dos comportamentos do Rafa

 

sei o que os pode despoletar, embora ainda esteja longe de os entender a 100% - acho que ninguém o poderá saber dessa forma...mas pelo menos percebo porque tem certas atitudes que para muitas pessoas são sinónimo de indisciplina ou má educação

 

Eu podia dar explicações absolutamente correctas para que «os outros» vissem os porquês e entendessem as razões de certos momentos que parecem de loucos...e muitas vezes até o faço!

Quase sempre em público, quando as crises são graves e não podem ser «ignoradas» eu lá avanço com os conhecimentos de  causa e explico para que não seja olhado severamente, nem julgado pelas aparências...mas outras vezes, seja pelo desgaste, seja pela raiva da altura ou simplesmente por falta de tempo, acabo por deixar de lado as explicações...

 

não levo os meus filhos muitas vezes para locais propícios ao despropósito da implulsividade - sei da dificuldade em os controlar e entendo que os devo preservar da mesquinhez e da insensibilidade de alguns e mesmo da instabilidade desses locais públicos. Por isso, para nós, ir a restaurantes, shopping ou locais de culto (igrejas e festas por exemplo) só em ocasiões bem planeadas e quando acho que o benefício de uma saída compensa o risco...

Quando o faço, ponho os miudos ao corrente algum tempo antes (mas não demasiado para não fazer subir a ansiedade) e digo-lhes o que é esperado acontecer - isso é muito importante porque o enfrentarem algo fora da rotina sem saberem o que esperar, tem um efeito tremendo. Posso dar o exemplo do café - quando quero ir tomar um simples café e tenho de levar o Rafa (e agora o Quico) necessito de lhe dizer claramente o que pode fazer enquanto eu tomo café, tenho de o verbalizar «a mãe vai tomar café, tu podes tomar um pingo - quando chegar-mos sentas e esperas que nos atendam e pedes o teu pingo» Se o não fizer, arrisco a não o conseguir levar ou então, assim que entra no café é certo que fica desatinado e faz o que lhe passar pela cabeça - vê tanta coisa que quer tudo, mexe em tudo e nunca espera pela sua vez...

 

Disse ao Rafa que ía ao shopping - sim, depois de tantos dias em casa e sem alternativa viável por causa do tempo e da dificuldade em levá-los de carro, tinha de sair para arejar as ideias e deixar gastar alguma energia...

Eles iam entusiasmados para experimentarem as máquinas de jogos que estavam junto aos cinemas e claro, comer no shopping

 

E quando as coisas não acontecem como o esperado? as máquinas não estavam em funcionamento, algo que não foi nada fácil de explicar ao Rafa. Completamente frustrado e sem saber gerir essa frustração de outro modo, ele virou-se a mim. Junto à entrada para as salas de cinema e perante os olhares (e os comentários) de quem lá estava, saíram murros e pontapés e muitos gritos à mistura. Palavrões, chutos ao avô e empurrões a toda a gente...Perante o alarmismo do Quico eu quis levá-los para outra zona e tentar distraí-los mas o Rafa estava tão fora de si que demorou imenso tempo para aceitar ouvir...

Finalmente levei-os para a zona da restauração, ele como sempre foi o primeiro a chegar e quis fazer o pedido. Tão agitado que subiu para o balcão e foi alvo de muitos reparos de adultos esfomeados e tensos ou com alguns complexos, pelo menos a julgar pela forma como falavam para ele. Lá dei algumas (poucas) explicações e consegui que o atendessem. Depois de uma troca de menus e com o empregado baralhado o Rafa trouxe o que não queria - não queria queijo, veio com queijo...Já a reacção destemperada levou os seguranças a virem ao local - pão, alface e tomate pelo ar, gritos, pontapés e muita confusão, ele corre até ao balcão e faz novo pedido... e traz novo pão que acaba por fazer companhia ao primeiro pois a essa altura já nada era importante e o Rafa queria mesmo era dar «conta» de toda a energia que lhe consumia o corpo e o espírito...

Pela escada rolante abaixo, com o Quico ao colo e com vários olhos espetados em mim, só me apetecia sair dali para fora sem dar explicações...

 

Porque às vezes por mais que tente mudar o rumo dos acontecimentos acredito que o facto de os viver, serve para manter intacta a minha capacidade de luta interior. Se tiver de os explicar a todo o instante, perco a expontaneidade que tanto me ajuda...ou, se quiser ser ainda mais sincera comigo própria às vezes estou-me nas tintas para os outros e não explico porque

 

não me apetece!

 

 

 

sinto-me: pouco explicadora!
postado energia-a-mais às 23:46

Segunda-feira, 19 de Outubro de 2009

 

 

Já me diseram isto algumas vezes em relação ao Rafa...

 

é uma daquelas frases que saem da boca de pessoas que ficam «pasmadas» a olhar quando na rua (ou num sítio público) o meu filho tem daqueles comportamentos difíceis de ignorar...

 

Esta saiu de uma senhora que se encontrava na paragem do autocarro, depois de ver o Rafa histérico pela rua - dando pinotes, guinchando como um macaco (memórias do fds!) e batendo com a mochila em tudo e todos que apareciam por perto!

 

Eu ignorei o mais que pude...mas a mulher deu-se ao trabalho de se colocar à minha frente para me dar o «recado»

disse-me que ele estava possuído...eu teria de o levar a uma bruxa...

 

Claro que um pouco mais à frente, num sítio mais resguardado, tal como faço muitas e muitas vezes, eu olhei o meu filho nos olhos e em voz baixa mas firme, expliquei-lhe porque estava zangada com ele e como o seu comportamento estava desadequado. E apesar de estar na fase mais complicada do dia (quando a medicação perde o seu efeito!) ele aceitou e fez o resto do percurso a meu lado, falando normalmente do seu dia de escola

 

Isto depois de eu ver uma cena em que uma bruxa (das que estão disfarçadas de mulheres normais) espeta um valente estoiro num miúdo (presumo que neto...) porque este se lembrou de lhe dar um abraço mais apertado - a bofetada foi tão estridente que o miúdo caiu e ali ficou, soluçando e sentadinho sem se mexer ao lado da tal do recado

 

Curioso é que hoje mesmo me deparei com um «daqueles» comentários aqui no blog...e mais uma vez vez constatei quão difícil é aceitar as diferenças. Será que educar à palmada a troco de nada, é a única alternativa? Apenas porque num fim de dia a um adulto tudo é permitido e à criança não se reconheçe o desgaste e o cansaço? Isso é educar?

 

Serei eu então a bruxa - o Rafa está bem educado e tem hiperactividade

 

 

sinto-me: confusa!
postado energia-a-mais às 23:55

Domingo, 05 de Julho de 2009

muito fácil julgar, tecer juízos de valor, sentenciar, se

 

não vivemos a realidade do outro, se apenas conhecemos o assunto pelo lado de fora!

 

É fácil chegar a um blog público e apontar o dedo «os seus filhos são uns mal educados e a senhora é conivente com essa má educação» até porque o pode fazer anonimamente....

 

essa pessoa anónima que tem de cuidar das netas que «não são hiperactivas (obviamente, caso contrário a postura e compreensão em relação ao assunto seriam outras) nem mal educadas (o que irá depender do número de horas que passar com elas)», pode ter a sua opinião, não tendo no entanto legitimidade para JULGAR!

 

Essa pessoa anónima dá-se porém ao luxo de julgar! mas quando sai do blog, depois de cá deixar as suas sentenças, essa pessoa anónima vai viver uma realidade que nada tem a ver com a que acabou de julgar...e sobre a qual NADA entende.

 

Não é essa pessoa anónima que começa os seus dias por volta das seis e trinta da manhã, com duas crianças que se levantam tão eléctricas que parecem nem ter dormido...

Não é essa pessoa anónima que tem de arranjar mil e uma estratégias para conseguir preparar essas crianças para saírem de casa, para que as tarefas básicas e rotineiras não se transformem num caos, pois entre a impulsividade física, a baixa autonomia, a desconcentração e a dificuldade em terminar uma tarefa, existem contratos escritos, listas de tarefas, muitas horas a treinar rotinas, muitos acertos de métodos, todos os dias desde há seis anos para cá...

Não é essa pessoa anónima que enfrenta mais de meia hora de luta para a toma da medicação e que tem de controlar os difíceis momentos de náuseas e vómitos, enquanto esta não faz efeito e se aproxima a hora da saída

Não é essa pessoa anónima que vai trabalhar as oito horas diárias, onde o nível de competência é avaliado a cada instante, tendo já passado por horas de stress e sabendo que os dias serão SEMPRE assim

Não é essa pessoa anónima que tem de concertar métodos de trabalho escolar com a professora, de modo a garantir que para além da permanência na escola, ele obtenha bons resultados escolares

Não é essa pessoa anónima que chega a casa e abdica do jantar, para que os avós (estes que cuidam de netos hiperactivos) possam ir para casa e cuidar deles próprios por umas horas

Não é essa pessoa anónima que realiza as tarefas domésticas depois das 23h00, com cuidado para não pertubar ninguém, porque só a essa hora as duas crianças estão calmas o suficiente para adormeçer

Não é essa pessoa anónima que  segura na mão de um menino de oito anos e o conforta até às quatro da manhã, sempre que no dia seguinte haja por exemplo uma ida à praia, à piscina, um teste na escola ou apenas a visita de alguém, porque o sono fica longe e a ansiedade dispara

Não é essa pessoa anónima que tem de estudar e perceber (com a ajuda dos médicos) as diferentes patologias associadas à hiperactividade - as comorbilidades, para entender o porquê do histerismo quando ele entra num espaço fechado (como carros ou elevadores); o porquê dos gritos sem sentido quando vê um pássaro, ou o porquê de não usar roupa interior e rejeitar vários dos tecidos normais...

Não é essa pessoa anónima que deixa de frequentar certos sítios públicos, ir a esplanadas, gozar férias fora de casa, fazer viagens, não por recear incomodar os anónimos mas porque  a quebra de rotina provoca desiquilibrios e  tudo tem de ser bem pensado e orientado

Não é essa pessoa anónima que tem de refazer valores morais, familiares e educacionais porque afinal as certezas não existem e a «normalidade» assume muitos rostos!

 

No entanto EU que não sou anónima, que dou o nome e a cara por uma batalha tão simples quanto a de ver os meus filhos respeitados tal como são e sobretudo felizes com eles próprios, sou muito mas muito GRATA por não ser como essa pessoa anónima

 

Porque ao contrário dessa pessoa anónima, eu levanto-me com um sorriso e deito-me com gratidão por saber que fiz o melhor nesse dia

Tenho o privilégio de conhecer pessoas não anónimas que me dão apoio, esperança, amor e me fazem ver outras realidades (seja no blog, seja pessoalmente - o Dr. Luís, as Doutoras Isabel, Vanessa, Patrícia, a prof. Fernanda, a Linda, a Carla, a Paula, o Vítor, todos acompanham, entendem, orientam, ajudam-me)

Tenho uma família que, longe de ser perfeita, é um suporte de estabilidade nos bons e nos maus momentos

Vejo com emoção cada vitória alcançada, seja um trabalho de escola com nota elevada, seja porque se lembrou de lavar os dentes ou porque vestiu sozinho o pijama

Saboreio cada beijo, cada abraço, cada carinho!

Amo e sou amada, aprendi a não julgar, a não ser amarga a Viver com alegria e por isso essa pessoa anónima não encontra neste blog queixumes, mesquenhices, relatos deprimentes...

É a minha maneira de ser, brinco com as contrariedades, adapto-me com vivacidade, nunca baixo os braços, vejo as coisas pelo lado positivo e esforço-me por evoluir com cada lição que a Vida me dá! E essa pessoa anónima, não me vai fazer mudar

 

Para terminar um recadinho para essa pessoa anónima

 

Psst, psst!

 

Sim, é mesmo para si caro anónimo (que já deve andar a cuscar)

Este é um blog público mas tem DONA! Vir até cá e discordar é uma coisa, trazer opiniões diferentes sobre a hiperactividade (desde que fundamentadas) até pode ser útil...mas JULGAR, não lhe reconheço esse direito!

Ofender outros leitores e comentar com má educação, não lhe permito! O blog é meu, a gestão só a mim me compete e para que não hajam dúvidas AVISO que qualquer comentário seu, no mesmo tom e conteúdo dos anteriores irá enfeitar o balde da reciclagem que por enquanto está vazio!

Não o elimino por mim, pois por certo acabarei por ler uma das suas «bacoradas» mas por respeito aos outros frequentadores deste espaço.

 

A  todos os que tiveram a paciência (e alguns tiveram mesmo muita!) de comentar o post anterior, o meu OBRIGADA pela coêrencia, pelo altruísmo e pela atitude!

 

PONTO FINAL

 

 

sinto-me: Aliviada!
postado energia-a-mais às 21:41

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